Cicloturismo na Serra Capixaba
Três dias de cicloturismo no Espírito Santo, atravessando o estado desde a Serra do Caparaó até o litoral de Guarapari. Sete amigos de Brasília/DF se reuniram em dezembro/2009 para pedalar em uma das mais belas regiões de montanha do Brasil e inaugurar esse roteiro inédito. Relato por Marcelo 'Magal' Aguiar.
Era pra ser de moto. Um projeto antigo de fazer um passeio que ligasse minhas duas paisagens preferidas no Espírito Santo - a Serra do Caparaó e o litoral sul capixaba, na região de Guarapari - na companhia de meu pai, o seu João, como é conhecido por meus amigos. Ele adora aventuras desse tipo e nasceu na região, em São José do Caparaó, vilarejo do município de Ibitirama encravado nos limites do Parque Nacional do Caparaó, que abriga o Pico da Bandeira, o 3º mais alto do país com seus 2.892m. Seria uma travessia literal do ES de oeste a leste, do alto das montanhas até o litoral.
Tivemos a idéia há uns anos atrás de sair da casa de nossos parentes que ainda vivem em São José em duas motos trail, rasgando as estradas vicinais que ligam os pequenos e modestos distritos dos municípios capixabas que fazem parte da Serra do Castelo, o enorme maciço montanhoso que configura na zona central do ES a conhecida Serra Capixaba. Ela se estende desde a divisa com Minas Gerais, em sua protuberância mais famosa (a Serra do Caparaó) até encontrar a planície litorânea, entre Viana e Guarapari. Em seu caminho, engloba 37% do território capixaba. Em nossa rota, cruzaríamos uma das mais belas regiões de montanha do estado, passando pelos municípios de Ibitirama, Iúna, Muniz Freire, Castelo, Vargem Alta, Alfredo Chaves, Anchieta e finalmente, Guarapari. Aproximadamente 200km de estradas de chão nas montanhas.
Num dia qualquer de setembro/2009, enquanto o projeto ainda era teoria, tomando a breja-nossa-de-cada-dia na companhia de um amigo e grande parceiro de mountain bike, o Marcão, foi lançada a pergunta: o que fazer no Reveillon 2010? Pros viciados no ciclismo off-road, viagens pra qualquer lugar devem obrigatoriamente incluir roteiros de pedal. Eu já estava decidido a passar a virada do ano em Vitória, minha cidade natal e aonde toda minha família reside. Foi quando eu contei do projeto de atravessar o ES de moto, e por que não, de bike...
O interesse pela travessia foi imediato. Logo comecei a descrever o relevo da serra capixaba, os vilarejos e cidades por onde passaríamos, a possibilidade de cruzar o ES sem pegar trechos de asfalto, o fascínio de poder sair da montanha e pedalar até a praia. Como sou capixaba, teríamos o apoio necessário no antes e depois do pedal. Tudo se encaixava. De repente me dei conta que meu projeto de fazer o passeio de moto teria que ficar pro ano seguinte. O negócio ia ter que ser feito na canela, pedalando.
Não demorou pra idéia tomar corpo e se espalhar no meio dos nossos amigos. Após o pedal, iríamos pra Itaúnas descansar as pernas e curtir a virada do ano. De prontidão, dois outros amigos se interessaram pela aventura: o Capone e o Kleber. Já éramos 4 mountain bikers decididos a atravessar o ES naquele que seria o primeiro cicloturismo organizado por nossa turma. Logo em seguida, um casal de amigos/ciclistas também gostou da idéia e confirmou participação, o Paulão e a Lelê. Só que com uma proposta inusitada, a de irem de carro, prestando apoio ao grupo e revezando entre eles o volante do carro e o guidão de suas bicicletas. Bela notícia, adeus alforges. Nada poderia dar errado, uma idéia simples estava se tornando uma grande aventura entre grandes amigos.
Pelo calendário apertado, teríamos que executar nossa cicloviagem entre 26 e 28 de dezembro/2009. Como não seria prático chegar na casa de meus parentes distantes em pleno Natal, optamos por começar a viagem na cidade de Iúna, 15km distante da BR-262, que liga Vitória a Belo Horizonte. A distância a percorrer, comparando com a que teríamos saindo de São José, seria praticamente a mesma. Assim, após 2 meses de pesquisa com meus amigos capixabas do mountain bike, muitas madrugadas no Google Earth e horas de planejamento no GPS Trackmaker, marcamos o início da aventura para o dia 26/12. Paulão e Lelê sairiam de Brasília e eu, Marcão, Capone e Kleber de Vitória, para nos encontrarmos em Iúna. De última hora, um outro amigo, o Rodrigo, resolveu encarar a jornada e o Kleber se dispôs a lhe fazer companhia na viagem desde Brasília. Tudo certo, tudo pronto, agora só nos restava reunir o grupo em Iúna e gravar mais 200km de pedal em nossos currículos.
1º Dia - 26/12/2009 - Iúna a Castelo
O casal Paulão e Lelê chegou em Iúna no dia de Natal, para encontrar o resto do grupo no dia 26 bem cedo. Rodrigo e Kleber chegaram por volta das 9h. Nós saímos de Vitória 7h30, apoiados pelo sempre prestativo seu João, com uma breve parada em Pedra Azul para um 'cafezinho'. Chegamos em Iúna 10h.
Alegria geral quando o grupo se encontrou. Me deu aquele frio na barriga, do tipo 'caraca, tem 6 chegados prestes a me seguir por 200km, vai que algo sai errado...'. Eu era, naquele momento, o ciclista doido pra pedalar pelas belas paisagens capixabas, o planejador ansioso por saber se tudo daria certo e o padrinho de uma rota cicloturística inventada por mim mesmo. Com tanta emoção junta, só havia uma coisa a fazer: tchau paizão, obrigado pelo apoio, aquele abraço, capacete na cabeça e vamos em frente: eram exatas 11h02 no meu gps.
Foi muito bacana atravessar a cidade num sábado, comércio aberto, todo mundo olhando aquela galera 'fantasiada'; duvido que algum cidadão local desconfiava da magnitude do pedalaço que nos aguardava pela frente. Com alguns quilômetros de asfalto, saímos pela ES-379 em direção à Muniz Freire, 26km dali. Foi um trecho perfeito pro aquecimento do grupo, a estrada acompanhou o tempo todo o leito de um rio, com pouquíssimas subidas e muitos trechos planos. Quase chegando em Muniz, uma grata surpresa: um downhill no estradão com 2,5km e 200 metros de desnível, até chegar à cidade, aonde fizemos nossa primeira parada para comer algo e esticar as canelas.
Lógico, ao chegar aquela trupe com bicicletas e roupas nada convencionais, juntou aquela molecada da cidade fazendo tudo quanto é tipo de pergunta. Tentei explicar o que estávamos fazendo e para aonde iríamos, mas a gurizada queria mesmo é saber o quanto nossas bikes andavam, qual velocidade, o quanto pulavam etc. Um calor dos infernos, já eram 13h e ainda havia 34km pela frente até Castelo. Encontrei a família Favoreto, velha conhecida, e após meus 15min de bate papo com eles e todos os pedalantes estarem fartos de Coca Cola e picolé, para o alto e avante, tínhamos uma serra para escalar.
No caminho para Castelo, a estrada passa pela belíssima Serra do Apolinário, aonde existe uma gigantesca antena da Embratel que outrora foi responsável por toda a comunicação da região. A estrada beira um vale magnífico, passando rente ao enorme granito que sustenta a torre. Todo mundo subindo na boa, curtindo a mata atlântica, cada um no seu ritmo. Só o ritmo do Marcão que estava forte demais e o impediu de subir junto do grupo.
Fiquei preocupado com o sumiço do ciclista alucinado e perguntei a um matuto que descia a serra: "Meu amigo, por um acaso viu um ciclista subir a toda por aqui?" Ele respondeu "ô se vi, pelo jeito que passou, devia tá era com pressa, viu... " Aproveitei pra brincar: "hehe devia tá é com vontade de cagar, né..." e o sabido me devolve: "olha, pelo jeito que ele passou, já devia era tá todo cagado..." kkk ganhamos a tarde nessa daí...
No final da subida de 3km e 300m de desnível, lá estava o Marcão, na frente da igrejinha de São Cristóvão, ponto mais alto do nosso primeiro dia de pedal. Lá esperamos todo o grupo se reunir, enquanto tirávamos fotos de uma imagem de Nossa Senhora presa dentro de uma gaiola, ao lado de um poço que soltava bolhas e emitia um som macabro. Sinistro...
Dali pra frente, alegria: um visual indescritível e só morro abaixo, 25km de descidas e 700m de desnível, pasmem. Passamos pelas localidades de Vieira Machado e Monte Vênus, parando pra reagrupar o downhill heterogêneo que se formou. Chegamos em Castelo por volta de 16h, ninguém detonado pois a demanda física foi pequena nesse dia, mas todo mundo com o sorrisão de orelha a orelha. Não é todo dia que ciclistas do Planalto Central pegam 1000m de desnível morro abaixo com paisagens surreais à volta e com tanta tranquilidade.
Hidrate-se ou morra: o slogan de um famoso fabricante de sistemas de hidratação é seguido à risca por nossa equipe. Já no primeiro boteco da cidade o grupo encostou e derrubou várias brejas geladas, até irmos para o centro e nos hospedarmos no ótimo Hotel Regina, que além de ter nos recebido muito bem, fez um preço ótimo pra rapaziada. O duro foi ter que dividir um quartão imenso com aquele monte de valete. À exceção do casal, todos nós ficamos num quarto com várias camas e após o merecido banho, fomos dar uma volta no centro da cidade.
Logo encontramos um enorme pavilhão de exposições e fomos lá ver do que se tratava. Era um bingo beneficente, organizado a partir de supostas doações anônimas de um benfeitor local para a associação de combate ao câncer infantil da cidade. Sem entrar no mérito da causa, eu, Capone e o Kleber começamos a conversar com a presidente da entidade, enquanto o Marcão comprava duas cartelas do bingo, a R$ 10 cada... daí veio a fome e a indicação do Rodrigo por uma churrascaria ao lado do hotel. Não deu outra, várias brejas e churrasco, após um dia desgastante, só podia resultar em cama. Menos o Marcão e o Rodrigo, que voltaram para a quermesse ver o bingo do automóvel 0km ser ganho por um vereador da cidade. E de raiva (só pode), chegaram 2h30 da madrugada fazendo a maior zona no quarto, chapados e esquecidos de que no segundo dia encararíamos 90km de estrada até Alfredo Chaves.
2º dia 27/12/2009 - Castelo a Alfredo Chaves
Eu juro que tentei evitar. Sair pra pedalar só às 9h seria a coisa mais insensata que poderíamos fazer. Mas... os enrolados ressecados da noite anterior ancoraram nossa largada prevista para 8h. Após o honesto café da manhã do hotel, o casal gaúcho (ele paraense, ela brasiliense) unido pelo poder daquelas ervas, tomava seu chimarrão enquanto os cicloturistas ajeitavam o equipamento.
Pausa no posto Peisino pra comprar gelo e a rapaziada do local nos recebeu muito bem, inclusive nos presenteando com bonés muito bacanas da empresa. Com um soléu digno de praia e muito protetor solar partimos pro dia mais duro de nossa jornada. Atravessamos a cidade de Castelo, subimos uma pequena colina e entramos no Parque Estadual de Mata das Flores. Refresco por uns 3km nas sombras da mata atlântica até chegarmos na localidade da Fazenda do Prata, entroncamento de várias estradas que ligam Castelo aos principais pontos turísticos da região. Um local muito bonito, evidência da prosperidade que um dia o ciclo do café trouxe pra serra capixaba. Avante até Monte Pio, outro pequeno vilarejo, que simbolizou o último lugar a nível do mar do dia. Avistamos a serra do Forno Grande, belíssima, com cachoeiras que podiam ser vistas a quilômetros e picos com quase 2000m. Lá no alto, a localidade de Patrimônio do Ouro, nossa próxima meta. Eu já sabia, por relatos dos amigos capixabas, que a subida era cruel, mas não imaginava o quanto: em 8km, 700m de ascensão, vencidos em quase 2h de pedal morro acima. O calor absurdo atrapalhou um bocado, mas estávamos preparados pra coisa pior... o único lamento foi ter chegado na vila já por volta de 12h, e com o tempo apertado, não pudemos visitar a Cachoeira do Furlan. Não lembro do grupo ter tomado tanta água quanto nesse trecho. Lá no Patrimônio do Ouro rolou aquele rodízio de sanduíche com coca-cola gelada, descanso de alguns minutos na sombra, e partimos em direção à São José de Fruteiras, 8km dali.
O trecho até Fruteiras foi muito tranquilo, pois estávamos no platô da serra e as oscilações na altitude eram mínimas. A paisagem chocava pela beleza com seus vales e montanhas repletas de plantações de café e mata virgem nos topos. Rapidamente chegamos no distrito e dali pra frente, 12km de asfalto até Vargem Alta. Originalmente, eu havia evitado pegar trechos de asfalto e de Fruteiras tentei traçar a rota por Matilde, mas não tive saída, ia ter que passar necessariamente por piso duro. Apesar do trecho ser ligado por rodovia estadual, a ES-164, não tivemos problemas com tráfego de veículos e formamos um pelote que seguiu com giro forte até Vargem Alta, aonde chegamos às 13h10.
A cidade estava deserta, pudera, era domingo. Com sorte, os caras conseguiram encontrar um restaurante self-service de comida simples porém deliciosa. A proprietária nos acolheu no melhor estilo capixaba, com simplicidade e muita hospitalidade. Devoramos quase todo o bufê, as coca-colas e o estoque de água mineral dela... o calor estava absurdo. Fizemos uma pausa no coreto da praça, meia hora deitados, todos fartos e eu preocupado: restavam 50km até Alfredo Chaves e eu não fazia idéia da dificuldade do terreno. Mas como não havia jeito, 14h30 estávamos pedalando novamente, debaixo de um céu limpíssimo e um calor pra lá de 30ºC.
Ao sairmos da cidade, surpresa: uma placa indicava "declive acentuado nos próximos 3km", na mesma ES-164. Segundo meus cálculos, isso já nos levaria até a localidade de Princesa, de onde ganharíamos o fora de estrada novamente. Paramos no mirante do Morro da Princesa para curtir um dos pontos altos do pedal, o visual da esplanada que se abria adiante com o mar lá no fundo. Finalmente avistávamos o litoral capixaba. Isso nos garantiu um ânimo extra pra continuar descendo a serra! Do outro lado da estrada, uma trilha que levava a uma lavoura de café me roubou a atenção pela placa que ostentava: "Proibido cagá no meio da lavoura". Me lembrei do Marcão no dia anterior... depois me dei conta que tal aviso poderia ser por causa do café do jacu. Será? A principal iguaria do café capixaba consiste na torragem dos grãos de café comidos pelo jacu, ave típica do ES, que elimina o grão inteiro em suas fezes. A fermentação em seu aparelho digestivo confere sabor inigualável e os lavradores catam as fezes da ave em busca dos preciosos grãos. E o preço chega a R$ 50 por quilo. Convenhamos, uma cagada humana no meio da lavoura poderia dar ao café local um gosto, no mínimo, de bunda suja.
Lá no final da descida avistávamos o vilarejo de Princesa. E o navegador/narrador aqui deu o sinal pro pessoal, "desçam com cuidado e nos encontramos lá embaixo". Capone desceu em primeiro e eu o acompanhava, quando olhei no gps e vi que havíamos passado a entrada. Por sorte eu estava em segundo e gritei a todos pra parar e voltar por uns 300m até a estradinha de chão à esquerda, mas o Capone... bem, passei um rádio pra Lelê, que estava no volante do apoio, e pedi que buscasse o colega lá embaixo, pois a serra era enorme e voltar aquilo tudo pedalando seria desumano. E fiquei na boca da estrada esperando o esporro... que nada, o cara adorou, desceu a serra toda e foi resgatado com direito a ar condicionado... tudo isso não demorou mais que 15 minutos, logo o grupo estava todo reunido, de volta à estrada de chão que nos levaria à São João de Crubixá.
Uma estrada linda, por sinal. Rodeada de mata atlântica, muita sombra, e só descida! 12km morro abaixo e 200m de desnível. Como a inclinação não era suficiente pra gente descer só com a gravidade, foi coroão e catraquinha dominando o pelote que andou unido até Crubixá. Chegando lá, pausa pra água, coca cola etc, e enquanto o grupo descansava, meu medo ia virando satisfação. Achava que os 50km entre Vargem Alta e Alfredo Chaves seriam no sol e com sofrimento, quando me dei conta de que só faltavam 20km a partir dali (o Mapsource calculou errado, eram só 40km no total!), e como sabia que Alfredo Chaves fica na planície litorânea, nível do mar, me dei conta de que os próximos 20km seriam de mais um enorme downhill. Só pegamos uma subida de 2km e 100m de ascensão, que serviu pra nos mostrar o vale por outro ângulo. Eu e Paulão subíamos quando vimos Lelê lá embaixo com o carro, visual de tirar o fôlego. Tiramos uma foto dela e ela uma da gente, com o poderoso equipamento fotográfico do fodógrafo Paulão. Essa subida foi tão bacana que ninguém reclamou. E quando eu cantei a pedra, alegria geral, era só descidão no meio da mata até Alfredo Chaves, aonde chegamos por volta das 17h30.
Nos hospedamos na pousada da Ademildes, senhora simpática que logo virou amiga do grupo. Sua pousada era bastante exótica e tinha mais escadas que o Convento da Penha... valeu a indicação no site da cidade na internet. Depois daquele merecido banho, fomos dar uma volta na cidade, na esperança de encontrarmos algum agito, mas pelo fato de ser domingo, tudo estava deserto. A pousada ficava a uns 2km do centro, tivemos que pegar um táxi pois o Paulão trancou a garagem de nossos transportes e levou a chave... o taxista nos descarregou numa pizzaria, aonde devoramos duas gigantes com muita cerveja, voltando pro castelo/pousada em seguida para descansar. Senti firmeza no grupo, todo mundo estava determinado a acordar bem cedo no dia seguinte e começar o pedal com o sol fraco. Nosso último dia de aventura seria encerrado à beira mar, em uma das praias de Guarapari.
3º dia - 28/12/2009 - Alfredo Chaves a Guarapari
Às 6h30 da manhã eu estava na mesa do café da manhã da pousada, crente que todos teriam o mesmo zelo com o horário. Devia ter dormido um pouco mais. O pessoal só desceu pro café por volta das 8h30 e mais uma vez eu sabia que iríamos pagar caro pelo atraso. Após o café e a despedida efusiva da Ademildes, passamos pelo centro da cidade umas 9h30 para ganhar a estrada de terra novamente em direção à última serra de nossa rota cicloturística.
A opção óbvia para quem sai de Alfredo Chaves para Guarapari é passar por Jabaquara, contornando a enorme serra que separa os dois municípios. Mas, como mountain bike é ciclismo de montanha... lá vamos nós subir o morro. Passamos pelas localidades de Caco de Pote e Rio Veado, sentido São Miguel, seguindo as indicações dos colegas ciclistas capixabas, com a meta de vencermos a serra e chegarmos no distrito de Buenos Aires, última localidade antes de Guarapari.
Já nos primeiros vilarejos todo mundo percebeu que, no terceiro dia de pedal, as pernas já não eram mais as mesmas. Optamos por reduzir um pouco a cadência e pedalamos na boa até um alto de morro, de onde começou um descidão até São Miguel. Segundo minhas orientações, ali começaria o verdadeiro off-road da jornada. De fato, a rota no gps nos faria passar por um trecho sem estradas tracejadas nos mapas. Dali pra frente, o que nos guiaria seria nossa intuição, a capacidade de navegação e a informação dos moradores locais.
Pausa em São Miguel pra discutir a estratégia do grupo e o Kleber resolveu fazer companhia à Lelê no veículo de apoio. Pegamos a estradinha precária para o lugar chamado Alto São Miguel, sempre atentos à indicação do gps. Tudo batia perfeitamente, a estrada era horrível pros carros (mas ótima pras bikes) e o Chevrolet Tracker da Lelê mostrou sua valentia nos pedregulhos e buracos da estrada. A paisagem mudava abruptamente, estávamos saindo do nível do mar e rapidamente já estávamos a mais de 200m de altitude. Alto São Miguel não passava de um amontoado de 4 ou 5 casas abandonadas num vale tomado por plantações de banana e café, sendo que dali pra frente não havia mais estrada.
Em uma das casas havia som de um rádio ligado. Gritei o famoso "ô de casa!" várias vezes mas ninguém apareceu. Buscava informações sobre a possibilidade de seguir adiante, pois estava certo de que dali pra frente o percurso seria por trilha e o carro teria que retornar. Eu e Capone estávamos na frente, enquanto o resto da tropa ainda subia o morro, e partimos pro exploratório. Achei um resto de estrada à esquerda, que graças ao meu planejamento no Google Earth reconheci como sendo uma ligação com um estradão no alto da serra. Enquanto isso o Capone achou um singletrack morro acima à direita. O grupo tinha acabado de se reunir quando um caboclo saiu da única casa habitada pra nos prestar alguma informação e nos abastecer com alguns cachos de banana.
As informações do morador, infelizmente, não batiam. Não havia opção pro carro a não ser a tal estrada à esquerda. Orientamos a Lelê e o Kleber a vencer a difícil subida com cautela e, ao chegarem na estrada do alto do morro, se informarem sobre como chegar em Buenos Aires. Nós arriscaríamos o singletrack e nos encontraríamos lá, algumas horas depois. Mas, para não desgastar o grupo inteiro, resolvi encarar o single sozinho pra explorar... subi uns 200m em 2km e vi que o percurso pegava a proa SE, quando o certo seria ir pra N... ainda tomei um susto dos diabos quando uma seriema enorme alçou vôo na minha frente, estava escondida em uma moita... é incrível como o cansaço e o calor tiram nossa capacidade de concentração e equilíbrio. Resolvi voltar e orientar o grupo a subir pela mesma estrada que o jipinho subiu. Já eram 13h30 e não havia espaço para erros, dessa vez estávamos no meio do mato e sem tracklog.
Quatro dias antes, na véspera de Natal, eu tinha feito a trilha da Muralha da China em Buenos Aires com o pessoal do mountain bike de Vila Velha e mapeado o percurso. Minha idéia era ligar o Alto São Miguel com o final da trilha dos Três Rios, distante apenas 2km em linha reta. Mas o terreno era quase vertical e de mata intransponível. Fiquei triste por ter que abandonar o percurso por trilha e pegar a estrada que o carro tinha seguido, mas pensei no melhor para o grupo e no objetivo principal, que era chegar em Guarapari ainda de dia e com todo mundo junto. Encontrei Capone, Marcão, Paulão e Rodrigo já subindo o single quando dei notícia da furada que aquela trilha era.
Sem hesitar, voltamos e subimos a estradinha até uma porteira, aonde tomamos fôlego pra continuar girando. Na pior das hipóteses encararíamos um estradão até Buenos. Mas, com menos de 2km de pedal, um enorme e lindo singletrack se revelava à direita, na exata proa que eu precisava pra encontrar com a parte mapeada de dias antes. Não custava nada arriscar, atravessamos uma pinguela e daí pra frente só alegria. A cada pedalada a distância pro ponto conhecido diminuía, o verdadeiro singletrack no meio da mata virgem, adrenalina na descida, muito barro, todo mundo usando tudo o que tinha de técnica, pronto! Saímos bem em cima de onde eu queria, no final da trilha dos Três Rios. Dali pra frente eu já conhecia bem o caminho e caso acontecesse algo, não estávamos mais 'perdidos'. Até agora não sei o nome dessa trilha, mas a batizei adequadamente como o single da "Salvação".
Quando juntou todo mundo numa casinha pra molhar o corpo num chuveirão, avisei que dali pra frente começaria o verdadeiro mountain bike. Iríamos pedalar por alguns km até uma fazenda, de onde subiríamos até a trilha da Muralha da China. De quebra, nessa subida passaríamos por um mirante de onde seria possível avistar Guarapari e suas praias, para depois escalarmos o morro da Muralha. Seria a última escalada do pedal.
De São Miguel até essa casinha foram 12km com 400m de escalada vertical. Todo mundo estava morto de cansaço, eram 15h00 e eu avisei, chegaríamos perto dos 800m de altitude no topo do morro. Ninguém desanimou, apesar da nova escalada de 360m, dessa vez em 5km. Pedalamos até uma fazenda de onde começa a trilha pra Muralha, passamos pelo mirante e paramos para algumas fotos e vídeos. Rodrigo já estava sendo derrubado pelo cansaço e o aconselhei a descer pela trilha da Erosão, menos radical que a Muralha. Eu, Marcão, Paulão e Capone subimos até o topo pra começar o melhor downhill dos últimos tempos.
Foram 5km de adrenalina, engolindo os 450m de desnível até Buenos Aires, fazendo valer a pena ter pedalado os últimos 190km numa bicicleta all-mountain com 150mm de curso. A trilha da Muralha da China é simplesmente fantástica, com muitos obstáculos, buracos, mato, pedras soltas, visual enlouquecedor e aquele cheiro típico de maresia, nos lembrando que tudo isso estava a poucos km do litoral. Descemos a trilha filmando tudo nas helmet cams de Capone, Marcão e Paulão. Logo adiante encontramos o Rodrigo, que tinha descido pela trilha da Erosão, mais curta mas não menos empolgante.
Nesse momento me bateu uma alegria muito grande de poder ter trazido meus amigos de Brasília pra um pedal tão bacana aqui no ES. A trilha da Muralha foi a coroação por todo o esforço que havíamos feito nos últimos 3 dias. Daí foi girar pela estradinha morro abaixo no vale do Córrego do Limão, para em mais poucos km, chegarmos em Buenos Aires.
Logo que chegamos encontramos a Lelê e o Kleber, que já estavam preocupados conosco. Pudera, já havia se passado mais de 4 horas desde nossa separação em Alto São Miguel. Várias brejas geladas pra comemorar, queijo com mariola pra repor as energias e seguimos pro ataque final: descer de Buenos Aires pra Guarapari, num descidão de 6km até a BR-101. Recomendei extrema cautela a todos, pois já conhecia bem a estrada. Eu e Marcão descemos na frente e ao chegarmos no trevo, longos minutos se passaram sem que ninguém chegasse. Estava óbvio que, morro abaixo, só um acidente poderia retardar a descida do grupo. De fato, numa das curvas o Rodrigo passou reto e abraçou uma cerca. Felizmente nada de mais aconteceu, apenas o susto e escoriações no lombo. Pior para o Kleber, que teve que abandonar seu confortável posto de zequinha da Lelê, ceder o lugar pro ralado Rodrigo, que reclamava de dores nos rins, e pedalar os quilômetros finais até Guarapari.
Parecia piada. Pedalamos 200km de montanhas sem nem um pingo de chuva sequer e, ao passarmos o trevo que leva ao balneário, São Pedro mandou seus cumprimentos. Chuva forte, de verdade, de empoçar água no asfalto. Pela primeira vez os pára-lamas da minha bicicleta eram usados. Mas a alegria de estarmos finalizando a cicloviagem era tanta que parecíamos crianças brincando na chuva.
Nossa chegada estava planejada pra praia da Bacutia, em Nova Guarapari, a 10km do centro do município. Como demoramos demais para sair de Alfredo Chaves e perdemos um tempo considerável em Alto São Miguel, eu já tinha mudado os planos e decidido por fazer uma chegada simbólica em alguma praia do centro, preferencialmente a das Virtudes, minha preferida. Mas a chuva fez com que tivéssemos que nos contentar com a foto final no Posto Dino, na boca da Ponte de Guarapari, aonde chegamos às 18h.
Eu, Marcão, Capone e Kleber não nos demos por vencidos e fomos dar um giro até a praia. A chuva já dava sinais de trégua. Um chopp na beira mar, até que nosso resgate pra Vitória chegasse, simbolizou o fim da aventura de três dias, 206 km de estradas, 4.700 metros de ascensão acumulados, muitas alegrias e nenhum pneu furado sequer.
No meu carro, de volta para Vitória, senti uma enorme satisfação por tudo ter dado certo. Ali percebi que minha recompensa foi ter tido o privilégio de cruzar a Serra Capixaba na companhia desses grandes amigos. Foi quando me deu vontade de repetir tudo, fazendo o mesmo percurso com o seu João. De moto.
Marcelo 'Magal' Aguiar
magalbsb@gmail.com



Um grande abraço a todos.
Família Favoreto
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Parabéns!
Que irado esta vaigem e muito maneiro tambem o relato!!
Parabens!!
Grande abraço
Ainda quero ir em uma dessas...rs.
Grande abraço,
Rubem.
Lugar maravilhoso!!! Muitas fadas no caminho? Aposto que sim... Mas, deu calo na bumda??? Dói nas é bom?!!!
Parabéns aos aventureiros!!
Deu gosto de ler o relato e ver as fotos, não só pela aventura em si e pelo visual, mas principalmente pela sua descrição "apaixonada" e "apaixonante" da nossa terrinha...
Vc leva jeito para isso, hein ?!? rsrsrsrsrs... Parabéns !!!
Tomara que um dia eu consiga fazer uma aventura dessas também !!! Mas sou obrigada a confessar que a de moto me atrai mais... rsrsrsrsrsrsrsrs...
bjão
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